16 February 2008 16 Comentários

O garoto indio que foi enterrado vivo



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Amalé tem quatro anos. Como muitas outras crianças, na terçafeira 12 ele foi pela primeira vez à escola, em Brasília. Índio da etnia kamaiurá, de Mato Grosso, Amalé chamava a atenção dos demais garotos porque era o único que não usava uniforme nem carregava uma mochila nas costas. Mas Amalé se destaca dos demais por um motivo muito mais preocupante. O pequeno índio é, na verdade, um sobrevivente de sua própria história. Logo que nasceu, às 7 horas de 21 de novembro de 2003, ele foi enterrado vivo pela mãe, Kanui. Seguia-se, assim, um ritual determinado pelo código cultural dos kamaiurás, que manda enterrar vivo aqueles que são gerados por mães solteiras. Para assegurar que o destino de Amalé não fosse mudado, seus avós ainda pisotearam a cova. Ninguém ouviu sequer um choro. Duas horas depois da cerimônia, num gesto que desafiou toda a aldeia, sua tia Kamiru empenhou-se em desenterrar o bebê. Ela lembra que seus olhos e narinas sangravam muito e que o primeiro choro só aconteceu oito horas mais tarde. Os índios mais velhos acreditam que Amalé só escapou da morte porque naquele dia a terra da cova estava misturada a muitas folhas e gravetos, o que pode ter formado uma pequena bolha de ar.



A dramática história desse pequeno índio é a face visível de uma realidade cruel, que se repete em muitas tribos espalhadas por todo o Brasil e que, muitas vezes, tem a conivência de funcionários da Funai, o organismo estatal que tem a missão de cuidar dos índios.

“Antes de desenterrar o Amalé, eu já tinha ouvido os gritos de três crianças debaixo da terra”, relata Kamiru, hoje com 36 anos. “Tentei desenterrar todos eles, mas Amalé foi o único que não gritou e que escapou com vida”, relata. A Funai esconde números e casos como este, mas os pesquisadores já detectaram a prática do infanticídio em pelo menos 13 etnias, como os ianomâmis, os tapirapés e os madihas. Só os ianomâmis, em 2004, mataram 98 crianças. Os kamaiurás, a tribo de Amalé e Kamiru, matam entre 20 e 30 por ano.

Os motivos para o infanticídio variam de tribo para tribo, assim como variam os métodos usados para matar os pequenos. Além dos filhos de mães solteiras, também são condenados à morte os recém-nascidos portadores de deficiências físicas ou mentais. Gêmeos também podem ser sacrificados. Algumas etnias acreditam que um representa o bem e o outro o mal e, assim, por não saber quem é quem, eliminam os dois. Outras crêem que só os bichos podem ter mais de um filho de uma só vez. Há motivos mais fúteis, como casos de índios que mataram os que nasceram com simples manchas na pele – essas crianças, segundo eles, podem trazer maldição à tribo. Os rituais de execução consistem em enterrar vivos, afogar ou enforcar os bebês. Geralmente é a própria mãe quem deve executar a criança, embora haja casos em que pode ser auxiliada pelo pajé.

Os próprios índios começam a se rebelar contra a barbárie. Neste momento, há pelo menos dez crianças indígenas em Brasília que foram condenadas à morte em suas aldeias. Fugiram com ajuda de religiosos e sobrevivem na capital graças a uma ONG, Atini, dirigida por missionários protestantes e apoiada por militantes católicos. A política oficial da Funai é enviar os exilados de volta à selva, mesmo que isso signifique colocar suas vidas em risco. “Não é verdade que entre os povos indígenas há mais violência e mais crueldade com seus infantes do que na população em geral”, sustenta Aloysio Guapindaia, presidente em exercício da Funai, em resposta por escrito à ISTOÉ. “O tema, tratado de uma forma superficial, transparece preconceito em relação aos costumes dos povos indígenas”, completa. Tem índio que não concorda. “Ninguém do governo nos ajuda a resolver o problema”, queixa-se Kamiru, com o auxílio de um tradutor. A recompensa pelo seu gesto de desafiar os costumes de sua gente vem daquele que ela salvou. “Minha verdadeira mãe não é a minha mãe. Minha mãe é a Kamiru”, diz o pequeno Amalé.

Outra índia que ousou enfrentar a tradição foi Juraka, também kamaiurá, de uma aldeia próxima à de Amalé. Ela está refugiada com a filha, Sheila, nove anos, no abrigo ao lado da Granja do Torto. A menina faz tratamento no hospital Sarah Kubitschek. Nasceu com distrofia muscular progressiva, uma doença que a impossibilita de andar. A tribo descobriu o problema quando Sheila deveria estar dando os primeiros passos. A mãe fugiu antes de ser obrigada a aplicar a tradição. “Não gosto desse costume de enterrar a pessoa viva”, diz Juraka, também com a ajuda do tradutor. No hospital os médicos disseram que não há nada a fazer. Sheila deverá passar a vida numa cadeira de rodas. “É a pessoa que mais amo no mundo, mais que meus outros filhos”, diz Juraka. Mãe e filha já retornaram algumas vezes à tribo. Os índios passaram a respeitar a coragem de Juraka e já começam a aceitar Sheila.

“É um absurdo fechar os olhos para o genocídio infantil, sob qualquer pretexto”, diz Edson Suzuki, diretor da ONG Atini. “Não se pode preservar uma cultura que vai contra a vida. Ter escravos negros também já foi um direito cultural”, compara. Suzuki cria a garota Hakani, dos surwahás do Amazonas. Ela hoje tem 13 anos. A menina nasceu com dificuldades para caminhar. Os pais se recusaram a matá-la; preferiam o suicídio. O irmão mais velho, então com 15 anos, tentou abatê-la com golpes de facão no rosto, mas ela sobreviveu.

“O infanticídio é uma prática tradicional nociva”, ataca a advogada Maíra Barreto, que pesquisa o genocídio indígena para uma tese de doutorado na Universidade de Salamanca, na Espanha. “E o pior é que a Funai está contagiada com esse relativismo cultural que coloca o genocídio como correto”, ataca o deputado Henrique Afonso, do PT do Acre, autor de um projeto de lei que pune qualquer pessoa não índia que se omita de socorrer uma criança que possa ser morta.

Longe da tribo, Amalé quer continuar a freqüentar a escola, mas exige uma mochila. Ele já fala bem o português e avisa que gosta muito de carros. Quer dirigir um quando crescer. “Vamos aprender muito mais com Amalé do que ele com a gente”, diz a diretora da escola, Aline Carvalho.

Por Istoé



16 Comentários to “O garoto indio que foi enterrado vivo”

  1. Matheus 16 February 2008 at 19:28 #
    Que coisa…A Funai não fez nada? É quer dizer que eles acabam com vidas de crianças inocentes por costumes e rituais?
  2. Dmitry 17 February 2008 at 14:35 #
    É engraçado que os índios querem ajuda da Funai para ganhar ajuda financeira e ter seus problemas resolvidos pelas pessoas brancas. Mas se eles são amparados pelos homens brancos e pela lei dos mesmos eles tem que se submeter a esta mesma lei.

    Se quer continuar sua barbárie pode se isolar na mata e não aceitar nem um remédio sequer.

  3. Thiago Leite 10 July 2008 at 13:02 #
    Há um motivo por trás de cada costume. Muitas vezes, o motivo material já não tem mais sentido, porém o hábito permanece. Outras vezes se justifica o motivo material com uma crença. No geral, se trata da crença de que a presença de tal ou qual criança prejudica a aldeia. A Funai poderia tentar um diálogo com as etnias que praticam infanticídio instituído (já que são poucas) para negociar a adoção por famílias não-indígenas.

    Sou contra o ataque às culturas deles, pois impor um estilo de vida muito diferente poderia desagregar esses grupos socialmente e seus indivíduos psicologicamente. Mas o infanticídio é uma violência. Tudo deveria ser tratado com cuidado, considerando todos os direitos dos envolvidos.

    • carlos sao paulo 14 May 2010 at 13:50 #
      SE VOCÊ E CONTRA POR CAUSA DA CULTURA DELES FAÇA UM FILHO POR ANO E TROQUE POR UM DELES,FODA SE A CULTURA E VIDA PARA TODAS ESSAS CRIANÇAS QUE VÃO MORRER PARA FRENTE E QUE DEUS ILUMINE OS QUE JA SE FORAM.
  4. diogo meira 7 October 2008 at 11:02 #
    Parabens ao jornalista que fez a reportagem..Seja la quem for ele, merece minhas congratulações, exatamente esse o nosso papel, divulgar a realidade, mesmo que ela seja triste e dolorosa, de nda vale fechar os ozlhos diante disso.
  5. Ary 8 February 2009 at 11:26 #
    Não tem o que discutir, os indígenas não-civilizados são um povo bem ignorante. Com “tradições” grotescas como essa. Pior que tem gente qua acha que temos que respeitar essas culturas. Se for assim teremos de respeitar também a mutilação genital feminina (remoção integral do clitóris) que ocorre em alguns países da África.
    Índio é, infelizmente, sinônimo de atraso.
    A verdade é que eles são uns criminosos, infaticidas. Deveriam estar no xilindró.
    Matam gente indefesa, inocente! E seus pares são cúmplices, incluindo a FUNAI e essas “ONGs”.
    Só espero que não apaguem minha postagem alegando “discriminação”.
  6. David Karai Popyguá 16 April 2009 at 14:57 #
    Sou indigena aldeiado e estudante de direito.
    todos nós sabemos o que é serto e errado,mas infelizmente essas etnias não tem essa distinção pois para elas as leis religiosas e culturais são sagradas e inviolaveis ; para eles. Todos que disafiam essas regras são considerados como pessos que querem acabar de vez com a cultura ou muitas vezez especies de anticristo , por isso que ninguem da aldeia faz nada.
    Na minha cultura guarani até algumas decadas atrás ainda tinha aldeias que mantinham esse costume pois acreditavamos que quando a mulher dava a luz a mais de um filho ,sempre tinha um que era o mal encarnado.Com isso matavam um e deixavam um vivo .
    Hoje em dia já não temos mais esses rituais , pois os guaranis tiveram muito contato com os não indigenas e aprenderam a lidar com o bem e o mal e principalmente com doenças serias em crianças.  
    Imfelizmente culturas mais antigas ,sentem um temor inimaginavel com relação ao mal ; pois quem ministra o bem na aldeia é o pajé e muitas vezes esse impoem o bem através de costumes que são voltados para o medo extremo do mal . Coisa que todos nós sabemos que muitas vezes são frutos de nossa imaginação.
    Para acabar com esses costumes devem ser realizados encotros entre lideres espirituais indigenas ,pois as culturas são muito proximas e tendem a ter as mesmas diretrizes.Se conseguirem juntar lideranças religiosas indigenas que vivem essas realidades e lideranças que já superaram a mesma, sem sombra de duvidas que caminharemos para um coreto e mais justo resultado.
  7. ailton da silva 25 May 2009 at 18:05 #
    a verdade é uma só esses funcionarios da funai,são desalmados porque não conhecem DEUS autor e consumador da vida.e uma vergonha que num pais como o nosso se permita tao coisa acontecer.
  8. Max 20 June 2009 at 16:41 #
    os indios são gente tem de ser punidos por issu
  9. Max 20 June 2009 at 16:42 #
    indios são racionais, e fazem uma burrise dessa
  10. Di_Gi 9 October 2009 at 15:20 #
    Só Jesus Cristo!
  11. rafaela 7 November 2009 at 11:13 #
    muito chokante muito cruel
  12. camila 11 November 2009 at 8:55 #
    voces nao sabem oque fazem..para que faze isso comnossas crianças..voces vaom ser presos.
  13. carlos sao paulo 14 May 2010 at 13:45 #
    A FUNAI TEM QUE RESPONDER POR ESSES CRIMES A FINAL O QUE ELA TA FAZENDO PARA QUE NAO OCORRA E UMA VERGONHA SABER QUE EM PLENO SECULO 21 PESSOAS DENOMINADAS CIVILIZADAS NAO FAZEM NADA (DA FUNAI)CADE OS DIREITOS HUMANOS LA NA ALDEIA E NA FUNAI.

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